sábado, janeiro 28, 2012

Vidas Malvadas


Há quem pense que a vida de um jogador de futebol perde sentido após o final da carreira.
Pois bem, tentaremos ilustrar o contrário: que o verdadeiro sucesso vem com o pendurar das botas. Recorrendo aos casos mais rebuscados, claro, deixando de parte os fenómenos conhecidos de comentadores, treinadores e socialites.

Para começar, temos Krpan. Krpan, quem diria, tornou-se num ídolo da criançada. Volumes e volumes de livros, musicais, desenhos-animados e toda uma vasta parafernália de merchandising invadem os espaços comerciais, onde pirralhos aos berros testam a paciência dos pais, reclamando por um contacto mais próximo com Krpan. Tamanho é o êxito que Krpan seguramente não terá saudades dos seus tempos dentro das quatro linhas (ele e toda a gente).

Podemos também recordar Beke – mas é provável que não consigamos, a menos que nos chamemos Carlos Manuel. O vigoroso central que acrescentou centímetros de forma mais notória às defesas de dois clubes arrastados para a lama das divisões inferiores, o Salgueiros e o Campomaiorense, arranjou o seu caminho como actor de cinema. E logo com um papel de destaque num remake de uma saga famosa série dos anos 80, especialmente concebido para si. Os críticos do “Público” já vergastaram com a sua prosa insensível os méritos desta saga, mas as famílias aderiram em massa. E Beke ganhou um novo fôlego.

Até Djukic, o saudoso Djukic que adornou tardes de intensa canícula no S. Luís sob os protestos e gestos bruscos de Paco Fortes, ganhou destaque junto da imprensa internacional. Finalmente, foi-lhe reconhecida a codícia atacante que sempre demonstrou nos relvados. Ou quase sempre. Algumas vezes, pelo menos. Aliás, todos esses loucos anos 90 do Farense, hoje tão distantes e tão irrepetíveis, mereceram uma análise detalhada que agitou todo o mundo desenvolvido, sempre tão atento a eventuais ameaças de armas de destruição maciça. Como é o caso de Djukic.

Bom, mas o contrário também é verdade: lá por estarem no activo, não quer dizer que a vida de um jogador de futebol seja um mar de rosas. Atente-se nestas duas situações.

Kléber, por exemplo, chegou, viu e desapareceu. Não foi um desaparecer violento como o de Adriano, nem um desaparecimento monetário como o de Falcao, nem tão pouco um não-aparecimento como o de Walter. Foi um eclipse temporário a caminhar para o permanente, uma luz já de si trémula que se esvanece com o som dos assobios, um “não” rotundo às finalizações fáceis. Lá para os lados de Contumil afixaram-se cartazes e organizaram-se grupos de buscas. A esperança é a última a morrer. Mas toda a gente sabe que quanto mais tempo passa, mais forte é a possibilidade de Kléber ser esmagado pela roda de um carro durante a noite. A sério.

E também Yannick Djaló passa por momentos delicados. Seja pelo colossal desafio que será inventar um nome para a sua filha, seja pelo facto do silicone da sua mulher ser PIP, ou, quem sabe?, por não ter clube. Não que antes, quando tinha clube, Yannick já não causasse grandes dores de cabeça aos adeptos e a si mesmo, mas, se calhar, ter clube é uma coisa assim para o importante se estamos a falar de um jogador de futebol. O desespero cresce e já vale tudo para colocar Yannick num grémio qualquer. Até anúncios em páginas improváveis dos jornais. Eu escrevi colocar? Peço desculpa, o verbo é mesmo “impingir”. E o Bojinov que não se meta a pau, não, que nem oferecido como brinde do Happy Meal se safa um dia destes.

Pois é, a vida de futebolista dá muitas voltas e raramente é tão linear como o povo julga.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

A Afirmação dos Trinta

Paco Bandeira celebrizou a “ternura dos quarenta”. Até há pouco tempo, todos pensávamos que ele se referia aos quarenta anos de idade, mas agora nós já desconfiamos que ele estaria a pensar nos quarenta estaladões na cara da mulher. Enfim. Para além deste propalado sentimento que invade os quarentões, não nos podemos olvidar da “afirmação dos trinta”. Sim, os trinta: a idade da maturidade não tão madura assim e da juventude não tão jovem quanto isso, o local da nossa estrada onde confluem a aprendizagem e a experiência, onde jogamos ao “sim-ou-sopas” das nossas vidas e onde, genericamente, atravessamos o ponto de não-retorno daquilo que irá resumir a nossa existência.
Serve este intróito para descrevermos a trajectória da carreira de Ricky. Ricky era simplesmente Ricky; não era apanascado como o Martin, nem comprido como o van Wolfswinkel, nem especialmente engraçado como o Gervais. E simples foram as suas raízes: despontando na sua Nigéria natal, realizando uma improvável travessia do Atlântico até ao Brasil e acabando em França, primeiro no Laval e depois no Metz – o clube com nome de bebida da Martini, que anos volvidos nos ofereceria, desinteressadamente, o prazer de podermos vislumbrar esse inigualável pensador da bola chamado Didier Lang
Estava Ricky ainda nos seus “mid 20’s”, imberbe e imaturo, quando o Benfica o descobriu, quase uma década antes de Lang, para alargar uma frente de ataque que possuía a frieza ainda pouco adiposa de Magnusson e a excentricidade de contornos caladescos de Adesvaldo Lima. Porém, os resultados práticos foram semelhantes aos de Lang. Ricky perfez apenas 4 jogos de águia ao peito para o campeonato e um poker de golos ao superlativo Riachense para a Taça não foi suficiente para convencer a exigente massa adepta benfiquista, rendida (ou desmaiada) perante o perfume africano mais refinado de Vata, o goleador que tanto marcava a jogar futebol como a jogar andebol e que obteve a proeza de se sagrar o “pichichi” de um campeonato com 38 jornadas com somente 16 golos – ou seja, deve ter rematado para aí um terço dos penalties que Cardozo falha por época, só para terem uma noção. Acto contínuo, Ricky foi acompanhado até ao terminal do Colégio Militar, fingiu que mostrou o passe ao entrar numa camioneta da Vimeca e ficou assim consumada a sua dispensa para o Estrela da Amadora.
Na Reboleira, deu-se uma feliz conjugação de factores: é uma terra habituada a receber africanos e Ricky aproximava-se vertiginosamente da idade dourada, os trinta. E foi ver a contagem de golos a aumentar: só para o campeonato, 12 golos na primeira época e 15 na segunda, sendo inclusivamente o jogador mais utilizado do plantel nesta última. Melhor marcador indiscutível, num plantel onde pontificava muita gente de cariz defensivo, como o eterno Rebelo, o clássico bigode de Duílio e o bebé Abel Xavier, mas pouca concorrência atacante. Outros voos se indiciaram a Ricky e este avançou como uma torre sempre a direito até ao xadrez do Boavista, orientado por Manuel “Tenho Dezenas de Milhões de Egípcios a Chamar Por Mim e Nenhum Deles é o Abdel-Ghany ou o Sabry” José.
E foi aqui, no feudo do Major, que Ricky atingiu o apogeu, justamente na época das suas trinta primaveras. 30 golos – como não podia deixar de ser – em 34 jogos. Melhor marcador do campeonato. Uma combinação quase perfeita com o menino João Pinto e o perfurante Marlon Brandão. Uma Taça no palmarés. Um sorriso maroto a encostar aqui, a tocar dali, a fuzilar acolá. O Boavistão em delírio.
Depois, uma boa época, a fazer de cicerone ao despontar de Artur. 14 golos não estava mal e ainda conseguiu bater o gelatinoso brasileiro ao sprint pelo título de melhor marcador da equipa. Mas em 1993/94, 6 tímidos golos em 30 jogos. Uma personalidade afectada pelo refulgir imparável de Artur e a concorrência cada vez mais apertada provinda de Luciano, um Jacaré antes do tempo, e do sempre presente Nelson Bertolazzi. Estava ditado o fim dos dias de glória no Bessa. Os trinta anos transformaram-se em trinta em três num ápice e Ricky, que lia a bíblia (não era “A Bola”, era mesmo aquele livro que costuma estar nas cabeceiras dos hotéis) e sabia o que tinha acontecido a Jesus (não o treinador que mandou o fair-play às malvas, mas o tipo que costuma andar por aí nas cruzes), sentia o tapete a fugir-lhe por baixo dos pés.
Ainda tentou recuperar forças no Brasil, mas o chamamento do Belenenses foi mais forte. Em Belém, todavia, os tradicionais pastéis embrulharam-se-lhe no goto. Eclipsado pela fantasia de Mauro Airez. Acometido de vergonha perante o excesso de jactância de Luiz Gustavo. Esmagado sem piedade pela pujança de Darci. Driblado pelo instinto de sobrevivência de M’Jid. Desamparado perante os passes melosos de Bino e Abílio. Ultrapassado até por Zoran Ban, que nem sequer ligou os piscas. A sua única satisfação: jogou mais e marcou mais um golo que Adamczuk – que por acaso não chegou a meter a redondinha lá dentro por nenhuma vez. O que foi pouco. O presidente apelidou-lhe de “mercenário” e ele preferiu reagir com actos em vez de palavras – num movimento insuspeito e nada denunciador, deslocou-se até ao Qatar, primeiro, e para a Arábia Saudita, depois, onde finalizou a sua carreira ao lado de uma nota de rodapé do futebol português dos anos 90, o seu compatriota Siasia, que exibiu alguns laivos de genialidade num Tirsense na antecâmara europeia para quem quis ver (não foram assim tantos, infelizmente).
Mas Ricky aproveitou o ser trintão. Oh, se aproveitou. Antecipou-se a Yekini e Amunike e tornou-se no primeiro nigeriano a brilhar a sério no campeonato português. Hoje em dia, cinquentão, Ricky olha com melancolia para o passado e uma nostalgia perpassa-lhe o espírito, enquanto tenta levantar a cabeça como o Rui Patrício e fazer de conta que não se passa nada como o Kléber. Como dizia o velho Paco, na sua imensa sabedoria, “o importante é o sorriso/ para seguir viagem / com a coragem/ que é preciso” – isto, claro, antes de perder a paciência e aplicar um rotativo à Van Damme na amante.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Pontapés na Ortografia

O novo acordo ortográfico é uma coisa que, na opinião de muitos, nunca deveria ter sido posta em acção. Ou ação.

Porém, há muito que já se anunciava uma nova grafia para as palavras às quais nos acostumámos. E isto é um facto. Ou um fato. Daqueles italianos às riscas usados pelo Costinha enquanto faz a lida da casa.

Provas? Eis-nos em 1988:
Esta colecção, ou coleção, como preferirem, foi autenticamente visionária. Precursora, mesmo. Muitos de vós, ou voceses, questionareis: “eh pá, mas este gajo não me é estranho”. É claro que não. Este sorridente magrebino é nada mais, nada menos, que Hajry, o pêndulo centrocampista farense durante épocas a fio. Ou melhor, era o Hajry – daqui em diante, com o novo acordo, será o Adjri.

Adjri foi um marroquino que passou com relativo sucesso por Portugal, e não estamos a falar da sua capacidade inata para vender tapetes. Foi contemporâneo de outro marroquino, o Há Giz (dantes escrevia-se Aziz), o pequeno mago que acendia a luz no meio-campo dos tigres da Costa Verde, que hoje se escreve Costa Esverdeada Que É Mesmo Verde Quando Há Algas Tóxicas Flutuando no Mar. O sucesso com que se ajeitava com a bola fez com que os farenses fossem buscar mais produto a Marrocos, e não estamos a falar dos fardos de haxixe, ou ganza, que dão à costa. Seu nome: Açan. Os mais provectos apenas reconhecerão este rei e senhor da área com a grafia antiga – Hassan. Açan foi, sem grande margem para discussão, o marroquino mais popular que alguma vez jogou em Portugal, tornando-se símbolo dos leões algarvios. Os compatriotas que lhe sucederam não tiveram o mesmo impacto (aqui o “c” mantém-se, acho eu) futebolístico. Vide as situações de Tá Ar Elquealeija e Eladriui, os avermelhados (no sentido da cor da camisola e também da cor do cartão que lhes era mui grato) de Lisboa; o outro Sá do Sporting, o Sá Bér, ao qual se juntou o efémero Adji; ou Sequetiui, o jogador que pode resumir a sua carreira num simples golo, e Xipô, cuja farta cabeleira ofuscou largamente a míngua de recursos futebolísticos.

Como podem perceber, a nova grafia empresta toda uma aura de novidade a jogadores já conhecidos. Agora… a nova grafia torná-los-á objectivamente, ou objetivamente, melhores jogadores? Bom, isso já são contas de outro rosário. Ou Rosário.

sábado, janeiro 14, 2012

Portimão no coração

Ora dá cá um Simmy, ora toma lá um Plummer.
Papa lá o meu Mor e regozija-te com um Goda.

Assim vai a vida em Portimão,
terra pequena, mas cheia de emoção.

Podes percorrê-la a pé ou de Skoda,
mas o melhor é pedires indicações ao Goda.

É certo, o homem não fala grande coisa de português,mas tem cá uma direita, que nem a vês.

Por falar em direita, terrenos pisados por um canalizador,
Plummer de seu nome, estrela de grande fulgor.

O rapaz pode ser pequeno e facturar à Postiga,
mas inglês no Algarve só quer é encher a bexiga.

Oh Plummer, huge bummer.
Jogar em Portimão só é fixe no Summer.
Onde encontras muita gente como tu,
britânica, trôpega, a passear de tronco nú.


















Ao menos tens a companhia do Simmy,
Que é grande como o cacete do Jimmy.

Ups, falei no cacete do Jimmy, meu Deus!
Não digo o espanhol que jogou no Braga, mas do Senhor que cuida dos seus.
Pelo menos assim jura o Ribeiro ex-Beira-Mar,
É verdade, tudo serve para do cacete do Jimmy não falar...

Mas foi antes o Simmy que nos trouxe aqui,
alto como uma girafa e tão seguro de si.
Tanto futebol nas veias aos 19 anos apenas,
que há quem diga que ajudou na construção da Acrópole em Atenas.

Atenção, não falo de novo Leandro Lima,
que esse trepou pela escadaria da vida acima.

O Simmy é simplesmente um rapaz crescido,
fininho como o Chico e no regabofe contido.
He doesn't party like it's nineteen-ninety-nine,
nem achava os bacanais do Rubens Jr, Esquerdinha e do Pena really fine.

Para festas e bacanais temos cá o Papa Mor e o Madior,
Ambos filhos de um Deus maior!
Ora bolas, falei em Deus de novo...
o gajo que pôs o Couceiro em Moscovo!

O outro, já disse, jogou no Arsenal minhoto,
e sua carreira se assemelhou a uma infecção no escroto.


Já sabem, da próxima que forem a Portimão,
peçam ao Goda que ele vos dá a mão.
É melhor que ao Papa Mor, pois ele só dá a cara,
e presentes de Rudi ao Junior Caiçara.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

As Palavras Que Nunca Te Direi (Porque Levei Pontos Na Boca E Custa-me Mexer O Maxilar)

Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Leonardo Di Caprio e Kate Winslet. Paulinho Santos e João Pinto. Javi Garcia e 95% dos outros jogadores do campeonato. Já todos presenciámos célebres casais apaixonados nos ecrãs, trocando mimos e carícias várias até uma teimosa lagrimazita forçar o seu caminho pela face abaixo do empedernido espectador. Poses emblemáticas. Frases que se gravam no coração, apertando-o com um estranho ardor. Olhares que nos fulminam, despertando em nós formigueiros incontroláveis que varrem a nossa estrutura óssea de ponta a ponta. E depois, aquele último beijo com o som dos violinos chiando ao fundo, torneando a brisa que sopra delicada ao pôr-do-sol, fazendo soltar suspiros em toda a assistência (no caso do Paulinho Santos e do Javi Garcia, substitua-se “beijo”, “violinos” e “suspiros” por “cotovelada”, “claques” e “gritos de dor”, respectivamente). É um espectáculo.

Mas… e os duros? O Chuck Norris, o Steven Seagal e o Fernando Aguiar não amam? Amam, pois. Já provámos isso e eis mais uma prova: Eliseu e Sá Pinto ensemble, Primavera de 1995, a bela Primavera dos amores perfeitos, nesse recinto atacado pelas setas de Cupido denominado Estádio Mário Duarte, sito na romântica Veneza portuguesa:

Ponto 1: ninguém terá dúvidas que, fora dos estúdios de Hollywood, Chuck Norris e Steven Seagal parecem a turma do Noddy quando comparados com a rudeza crua destes dois sanguinários do futebol indígena. Eliseu e Sá Pinto foram dois dos mais inspirados autores do Manual do Bom Rufia do Futebol Português, Manual esse iniciado sabe-se lá por quem e sucessivamente aditado de várias contribuições… até que um dia, Binya, ao seu estilo, chegou e rasgou os tendões de Aquiles deste Manual, fazendo tábua rasa de tudo o que já tinha sido escrito e construindo uma nova base para a boa cacetada. “Binya é um senhor”, parece ter confessado Javi Garcia em sinal de gratidão por tão valiosos ensinamentos, mas afinal ninguém viu, ninguém ouviu, ele não disse, não havia câmaras, ele não estava lá, foi alguém que disse por ele nas suas costas, etc. e tal… e foi-se a ver, o Javi Garcia não fez nada e estava só a rezar ao Menino Jesus. O costume.

Ponto 2: Nicholas Sparks não o admitirá, mas muita da sua obra literária sorveu inspiração deste instantâneo. Verdadeiramente enternecedor. A cara prenhe de paixão de Eliseu, de cabelos fulvos e dentes cerrados, esticando o seu braço tenso de tanto amor ao encontro de outro loucamente apaixonado, essa Florbela Espanca do futebol português no seu sentido literal que era (é?) Sá Pinto, que fecha os olhos para melhor saborear o prazer doido que lhe afaga a face e invade as veias, fazendo-as pulsar por mais actos de amor desaustinado. Uma conjugação felicíssima, até nos patrocinadores – ambos lacticínios, um é queijo, outro é leite, dois produtos que se calhar até provieram da mesma vaca, da mesma teta, da mesma ervinha que ela ruminou, ervinha essa que pode ter sido a do Mário Duarte. Ou um círculo fechado em si mesmo. Uma simbiose natural. O destino juntou Eliseu e Sá Pinto nesta tarde e os seus corações jamais vibrariam com a mesma violência apaixonada a partir daqui.

Coincidências? No amor não há coincidências.

PS: impressionante o plantel do Beira-Mar nesta época, constituído por um verdadeiro poker de ases de paus: para além de Eliseu, Sandokan Dinis, Hugo “Sniper” Costa e O Outro Eusébio, aos quais se juntava o joker Piguita. You can’t beat that.

sábado, dezembro 17, 2011

Operação Coração

Pois é, o Natal está aí e com ele a promessa de preocupação para com os mais desfavorecidos. É tempo de nos lembrarmos de quem tem menos. E nesse sentido, olhem que bela recordação:
Cá está a prova, a cores e tudo.
Nem de propósito – um título da infame OPERAÇÃO CORAÇÃO: que acção pode ser mais solidária que esta?


Este tema é um bocado tabu nos dias que correm, ou não estivéssemos todos a viver um momento de Operação Coração forçada em nome de Portugal. Recuemos então no tempo.

Estávamos em Dezembro de 1994. O auto-denominado Glorioso passava por momentos conturbados. Margarida Prieto, a mulher do leme, e o seu primeiro-valete (por oposição a dama), Manuel Damásio, chegaram havia pouco tempo. Logo descobriram um buraco mesmo ali à sua frente. Não, não se tratava das obras do Colombo nem sequer do espaço que Tavares usualmente deixava livre no meio-campo. Era sim um buraco financeiro – um buraquinho de alguns milhões de contos, coisa pouca. Vai daí, Damásio, arguto, engendra as seguintes soluções:

- Aliena o maestro Rui Costa para Itália, consumindo uma soma indeterminada de lenços de papel no processo, devido às lágrimas e ranho vertidos, mas gerando um movimento neo-sebastiânico em torno da imagem do menino da Damaia que, à falta de melhor, sempre preencheu os facilmente impressionáveis corações benfiquistas durante os anos vindouros;

- Adquire Rei Artur para o banco, o grande bigode do futebol português, sobejamente laureado, mestre da táctica lírica e autor de frases como “todo o jogador é toxicodependente disto ou daquilo”, referindo-se a Caniggia, ou “o Benfica é um circo”, referindo-se a uma metáfora empregue numa obra de Vergílio Ferreira (não era nada, estou a brincar; referia-se mesmo ao Benfica);

- Dota Rei Artur de uma plêiade invejável de jogadores, como Preud’Homme. E… hã… já disse o Preud’Homme?;

- …E Nelo, Tavares, Clóvis, Stanic (antes de aprender a jogar à bola), Rui Esteves (o mago louro que fez 126 deliciosos minutos com a camisola rubra), Paulão (o defesa, que o avançado viria depois), Amaral (o que era do Sporting e não o coveiro) e não um, mas DOIS NOVOS EUSÉBIOS!: Akwá, com o menino Edgar já à espreita – fartura, meus caros, chama-se a isto fartura;

- Fecha contrato com a Parmalat, numa mega-parceria de contornos bíblicos, prometendo que o dilúvio de dinheiro seria tão grande que até Noé se borraria de medo perante aquela perspectiva de dólares e liras e escudos a jorrar ininterruptamente das tetas da multinacional dos lacticínios;

- Isto já devia ser suficiente, mas o melhor era rezar um bocadinho para que tudo corresse bem e por isso constrói a Capela da Luz, autêntica pièce de résistance, promovendo Preud’Homme a Saint Michel.

Para que não restem dúvidas, eis a diferença entre Amaral I (o tal que marcou o golo para a Supertaça nas Antas e que ainda hoje está para perceber como lhe puderam anular o píncaro da carreira) e Amaral II, o coveiro.


E estava aqui a fórmula do sucesso.

Chegados a Dezembro, porém, o dinheiro para as prendas escasseava e Margarida Prieto continuava a gastar o ordenado que seria para pagar o salário de Pedro Henriques, Abel Xavier, Kenedy e as importações colombianas do Caniggia em cabeleireiros, manicuras, ortodoncias, catálogos Avon, implantes de botox e arte sacra para decorar a Capela da Luz. Damásio pensou numa solução e contou-a a Margarida, mas levou uma chapada e calou-se. Depois levou-a a passear e a jantar fora e, enquanto lhe oferecia um anel de diamantes, voltou a contar-lhe a sua ideia: pedir, como um mendigo com dignidade fugidia, dinheiro aos sócios e simpatizantes, certificando quem contribuísse com um título que, sim senhor, atestava que o indivíduo em causa era benfiquista e muito facilmente burlável.

Ora bem, ora bem: aqui as versões dividem-se e a polémica acentua-se; há quem ache que a interpretação transcrita acima não foi bem aquilo que Damásio sugeriu, que essa é uma interpretação injusta, usada por detractores e por gente sem sentimentos; que aquilo era um grito de alerta, um toque para reunir, um simples e legítimo apelo à congregação de esforços para a salvação de um bem comum e que quem contribuísse veria reforçado o estatuto de “bom chefe de família” – uma espécie de “meu Deus!; nós temos o Nelo e o Tavares, caramba!, isso não chega para nos ajudarem? O que querem mais? Que vamos buscar o Hassan e o Paredão?” (e por acaso até iriam, na temporada seguinte. E o King.)

Margarida estava tão deslumbrada com o brilho do seu anel que achou fantástico, a iniciativa era genuinamente cristã, ou seja, era uma instituição das maiores do mundo a usar o seu enorme poder para sacar uns cobres aos pobres acólitos. Parecia-lhe muito bem, os católicos sobreviveram durante séculos com estes expedientes e a IURD prosperava com coisas parecidas e nem sequer dava um título em troca. Nosso Senhor estaria certamente orgulhoso. Ah, e enquanto o Diabo esfregasse o olho, se calhar ainda daria para ir buscar o Marcelo ao Tirsense (e deu. Toma, toma.)

Ainda hoje, ninguém sabe ao certo como deve ser encarada, em termos filosóficos, a Operação Coração: se um embuste perpetrado por uma direcção incompetente ou se um sincero estender de mão de inspiração religiosa. O certo é que o tema foi morrendo, por vergonha ou por esquecimento, e hoje quase ninguém, especialmente os benfiquistas, se recorda da Operação Coração, de ter comprado um título, de ter ouvido falar, de ter alguém conhecido que tivesse comprado, de ter um tipo muito maluco que era primo do Barbas que tivesse estado perto de largar a nota, o Jorge Máximo encolhe os ombros, hã?, o que é que foi?, o que é que é isso? Nah, isso são cenas do Pinto da Costa, são os lagartos que estão a inventar, etc. e tal. Mas as coisas não ficariam por aqui.

Pelos vistos, a Operação Coração não cativou por aí além face às expectativas iniciais – segundo “A Bola”, sempre tão insuspeita nestas coisas, apenas se angariou 180.000 contos. Era claro que o espírito natalício passava por uma fase de amargura. Se não era possível convencê-los pela emoção, então convençamo-los pela razão: a parte II deste peditório alargado designou-se OPERAÇÃO CABEÇA. Manteve-se o teor cirúrgico da operação (ainda não estava na moda o transplante da medula), mas desta vez o mote era mais “estamos mesmo com falta de cacau, pensem nesses 5 contos tão bem gastos no Benfica”. Mas ainda resultou pior e chegar à cabeça dos benfiquistas provou-se ainda mais difícil do que chegar ao coração. Da Operação Cabeça sobrou quase nada até hoje, nenhumas imagens, nenhum rumor, pelo que se presume que o falhanço foi rotundo. Ainda se pensou em fazer a Operação Joelho, algo que ficaria reservado mais tarde para o Mantorras, mas até Damásio, que declarara o rendimento mínimo às finanças, teve vergonha para tal. E Margarida, saída do solário, apenas desejava que “fosse o que Deus quisesse, só quero é não partir as unhas”.
A moda Outono-Inverno '94 do Benfica: Edgar, o benjamim (ou Eusébio XXVIII); Rui Esteves, o génio incompreendido; Nelo, numa pose anormalmente metrossexual; Akwá, o Eusébio XXVII; Abel Silva, o outro defesa-direito que se chamava Abel e não era Xavier; e Damásio, o mentor (cheio de frio).

Passado pouco tempo, Vale e Azevedo assumiria os destinos da nau encarnada. E então assistiu-se ao terceiro capítulo desta saga, com um pedido para doarem dinheiro ao Benfica. Porquê? Porque sim. Vale e Azevedo era um tipo pragmático. Não é preciso uma razão. Os motivos não interessam. Se quiserem mesmo saber, era tudo que estava contra o Benfica: a FPF, o Governo, os grandes interesses estrangeiros, a ONU, os números do Totoloto, até a UNICEF, se for preciso. O que quiserem. Abriu uma conta, deu o NIB e disse “agora despejem para aqui, sff”. Não há cá operações, nem partes corporais, nem títulos, nem nada: apenas um bolso aberto e uma conta pronta a receber. Podem conferir aqui este apelo.

E assim se passava a época natalícia nesse loucos anos 90. Não havia a Popota, mas havia o Benfica pronto para acender as luzinhas da árvore, com acções de solidariedade ímpares, jamais repetidas desde então. É justo recordar estes momentos tão marcantes. Como diria Vítor Paneira, em Agosto de 1994: “Temos condições para fazer uma época terrível”. Um visionário, este Paneira.

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Élio Bruno Teixeira Martins

E se toda a tua vida fosse resumida num segundo apenas?

Uma brilhante faísca de genialidade ou uma apagada centelha de ineptude.
Qual escolherias?

Certamente a primeira, sem quaisquer reservas.

Põe-te na pele de um jovem de 25 anos assolado pelo pútrido fantasma da calvície precoce. Nasceste no Machico com sonhos afogados pelo Oceano Atlântico - o horizonte lá longe, no Continente. Um pote de ouro no final de um Arco-Íris interminável. Atravessaste a ciclópica mancha de água a nado, numa demonstração de inabalável força interior e assinalável potência braçal. Afinal, era esse o teu Destino. A tua salvação.

À Beira-Mar deste à costa, com as Chaves do sucesso na tua trémula mão direita. A fechadura mostrou-se inviolável. Guardaste a chave no bolso da esperança, mas não regressaste a nado ao Machico. Nem por um segundo duvidaste de ti mesmo. Procuraste a felicidade no destino comum a outros tantos compatriotas - Chipre, a nova Paris dos anos 70.

Porém, a salamandra do sucesso continuava a escorregar-te por entre os dedos - fria, húmida, fugidia. Esconde-se em qualquer falha do Muro das Lamentações, por mais pequena que esta possa ser. Porém tu, pleno de tikvá na alma, não te deixaste atemorizar. A tua crença carrega-te às costas, e sabes que um dia serás tu mesmo a carregar às costas a crença de milhares - quiçá milhões.
Por isso não desistes.

Regressas ao Continente Luso, com Chipre no retrovisor do cargueiro. Sem salpicos de dúvida ou arrependimento atravessas o crispado mar do insucesso.
Avistas de novo Beira-Mar.

"Desta será de vez!" apregoas de peito cheio.

Forças a entrada no palco maior do teu métier.
As coisas não correm pelo melhor, mas tu lutas, e lutas. Não desistirás nunca, porque o sucesso é uma inevitabilidade.

Até que chega o momento pelo qual sempre esperaste:
Aqui, agora, neste segundo, o Mundo abre-se perante ti.
Deus abre os portões da Imortalidade e estende-te um presente com ambas as mãos. De laçarote enfeitado.
É aquilo com que sempre sonhaste.

Noventa e quatro minutos e trinta segundos ficaram para trás - pela frente está o invicto Campeão Nacional, player de elite nas lides Internacionais. Condecorado, medalhado, poderoso, orgulhoso, forte e arrogante.
Mas naquela ocasião, inesperadamente, o Campeão tropeça.
Cambaleia.
Prepara-se para a queda, posiciona-se para a desgraça.
Só precisa de um pequeno - ínfimo, quase ridículo - empurrão.

É Golias à mercê de David. Naquele segundo apenas, naquele instante, tão inesperado quanto chocante.
E só tu o podes empurrar.

Sempre soubeste que o momento iria chegar um dia.
Os olhos do Mundo estão colados em ti. Carregas às costas a crença de milhões, contra a esperança de outros tantos.

O Universo dividido em dois. Desta vez não há Bem, nem Mal. Só tu David, e um Golias prestes a imortalizar-te como Herói - ou Mártir.

Posicionas-te, olhas o destino nos olhos e vês a sua face medonha desafiando-te num esgar malévolo.
É agora.

Atemorizas-te ou brilhas como uma supernova que escolheu deixar toda a sua vida para trás, dedicando-a por inteiro a um instante apenas - para cintilar como nunca ninguém antes cintilara?

O momento é teu, AGARRA-O!!
...
... e falhaste.

Falhaste de novo. Mas desta vez, meu amigo, o Mundo estava a ver.

Ajoelhas-te no relvado carregado de chuva, compondo com dolorosa perfeição uma trágica tela de decepção.
Mãos trémulas cobrem-te o rosto de vergonha.
A chuva, indiferente ao cenário, banha-te a prematura calvície com lágrimas cósmicas de uma estória repetida.

Deus deu-te a hipótese de escrever um triunfante epílogo para a tua própria existência.
Passou-te a pena celestial para a mão, mas foste apenas capaz de escrever um triste requiem.

Porém, a vida continua.

Ou será que não?

sexta-feira, novembro 18, 2011

Ironias do Destino

De vez em quando, rebuscando pelos arquivos, descobrimos quão irónico pode ser o destino. Atentem nesta foto publicada pelo Record online esta semana:
Ignorem o homoerotismo latente nesta imagem em que rapazes em trajos menores exuberam com demasiada proximidade. Estávamos em 2000, o mundo não colapsara, o casamento gay ainda era uma utopia e o FC Porto acabara de vencer a finalíssima da Taça de Portugal ao Sporting. Estes cinco rapazes (ou seis, com aquele tapado pelo Domingos - Alessandro, o cambalhota? - não vem ao caso) festejam a derrota do Sporting… desconhecendo que os seus destinos viriam a estar umbilicalmente ligados ao clube que acabavam de derrotar. Senão vejamos:

- Secretário: bom, na realidade, este não viria a ter relações futuras com o Sporting, para além de algum eventual riso dos seus adeptos pelas suas [inserir adjectivo à escolha] exibições. Mas nesse mesmo ano, Secretário já tinha entregado com os pés e ao cuidado de Acosta o bilhete para o título sportinguista, num episódio já deveras escalpelizado. A gratidão dos sedentos adeptos leoninos para com este [inserir substantivo condizente com o adjectivo introduzido acima] foi imensa. Tal foi a dimensão desta oferta que os médicos designaram o efeito da prenda de Secretário nos adeptos portistas como o “Reflexo de Chainho” – ou uma forte enxaqueca, simultânea a uma enorme incredulidade, traduzindo-se num levar de mãos à cabeça e num sibilino desabafo de “aaiiiiiiiiiiiii, que já fomos!”.

- Jardel: a maior cabeça do futebol indígena – definitivamente, não pela sua dimensão intelectual mas sim pela sua eficácia concretizadora usando a testa – viria, um par de anos depois, a fazer uma temporada brilhante no grémio de Alvalade. Nesse ano, monsieur Bölöni a été très content avec lui et son père, João Pinto, e tudo correu às mil maravilhas sob o signo do guaraná. Sol de pouca dura, porém, porque depois de piscinas e etc. a carreira de Super Mário ficaria como ele próprio nesta foto – de tanga.

- Domingos: a sombra de Jardel, que apenas jogara escassos minutos neste jogo, parecia ser o mais bem-disposto deste grupo, dançando e cantando com uma camisola do Sporting a cobrir-lhe as partes baixas. O Sporting era, aliás, o seu alvo predilecto e aquela camisola parecia uma espécie de troféu de caça. O canto de Alvalade já lhe tinha sido lançado havia pouco tempo, mas Mingos jurava fidelidade azul-e-branca. Pois é, passada cerca de uma década, eis que Mingos vê-se a liderar as hostes verdes-e-brancas e com um cabelo com muito mais estilo.

- Clayton: marcou um golo nesse jogo e estava a viver nos píncaros da sua carreira, depois de ter despontado no Santa Clara – o que, por si só, foi um feito. Depois, viria a ser trocado por esse eterno miúdo que nunca usou Clearasil que era Ricardo Fernandes e partiria de malas e bagagens para o Real Madrid (estou a brincar, era mesmo o Sporting) e aí conheceria os últimos e ténues raios de luz de uma carreira a descair para o ocaso. Há quem diga que se dedicou a fazer de garoto-propaganda da Pizza Hut. Mas deixem lá, que George, o seu sidekick no Santa Clara, após uma carreira nos Açores e nesse colosso venezuelano que é o Carabobo FC, certamente não fez melhor.

- Rubens Júnior – de facto, este não teve nenhuma relação especial com o Sporting. Ainda bem para o clube. Todas as fotografias têm o seu Emplastro e alguém que segura a Taça para que os outros se possam divertir à vontade.

domingo, novembro 13, 2011

Diferentes Similitudes

Quem não se lembra de Mbo Mpenza? Para quem não se lembra, eis umas pistas: veio para o Sporting no dealbar do ano 2000 e ajudou o grémio lisboeta a vencer o título que andava fugidio daquelas bandas como Ricardo Carvalho dos estágios da Selecção. Com ele assentaram arraiais em Alvalade César Prates, um lateral cristão com propensão para jogar com os calções subidos até às orelhas, so help him God, e André Cruz, um central que costumava derrubar corujas ensonadas com os seus pontapés certeiros disparados do cadeirão de onde soía jogar. Mpenza era do país do Tintin e talvez a sua família tenha servido de inspiração para a infame aventura desse sósia de Ronald Koeman pelo Congo. Ao contrário de Defour, confundido com uma oferta promocional que se oferece às pessoas à saída do metro em horas de ponta, parece que a factura do Standard Liège chegou a tempo e horas no seu caso.
Bem, mas digam-me lá que Mpenza não era uma versão do Seal de 1990? Aposto que a Heidi Klum não daria por nada e até aprovaria o facto de Mpenza ter uma cara menos cicatrizada que a foca cantora. Tudo isto para grande inveja de Javi García, o homem que coloca a mão em frente da boca e os cotovelos um pouco por todo o lado, que não consegue compreender porque é que “el negrón” ficou com uma loura que é modelo internacional e ele só conseguiu uma piscadela de olho da D. Maria das Dores, a empregada de limpeza sénior do Estádio da Luz com os dentes mais bonitos da zona, tanto um como o outro (há quem diga que foi por causa das cataratas dela).
 

Zé Pedro, o médio tecnicista sadino e não o guitarrista dos Rolling Stones portugueses, é um exemplo de polivalência. Por exemplo, com uns óculos escuros é o Howard Stern; com um bigode e uma mosca é o Frank Zappa; com uma bola nos pés é uma maravilha, mas não lhe peçam para correr.

Já Mário Loja, o veterano defesa que se fixou a distribuir bandarilhadas no Boavista, é o Pedrito de Portugal com os testículos ainda intactos. O Boavista que anda a tentar esquivar-se, ensanguentado, da estocada final. Foram anos de tourada que agora poderão sair caros. Esta é mesmo uma actividade cruel.


E Niquinha, o eterno dínamo vilacondense, e Sérgio China, outro motor que passeou o seu pulmão lá pelos lados dos Arcos? Não sei se são parecidos com alguém em particular, mas têm mesmo cara de duo de sertanejo. O duplo álbum prometido há mais de uma década, “China & Niquinha Come Alive”, está aí, à espera que a Discossete ou a Espacial lhe peguem – uma espécie de “Chinese Democracy” dos Guns N’ Roses, versão forró. Para já, o amarelo do ouro do disco que, por mérito, será deles, está distante, arisco como um Bolinhas à procura de linhas de passe para a finalização – mas, em contrapartida, os cartões amarelos que viram saltar como torradas fumegantes dos bolsos dos árbitros dão já para forrar as paredes de suas casas.

sábado, outubro 08, 2011

Pelo Trocadilho Fresquinho

“O que é Nacional é bom” é uma piada demasiado exaurida, que pretende juntar publicidade a massas, sentimento patriótico e futebol num só ente espirituoso, mas que continua a ouvir-se sempre que o Nacional ganha aos nossos rivais. Escrevi-o no mural do Facebook, displicente e apenas fiando-me no meu bom gosto. E também fi-lo em defesa do slogan centenário (ou quase) da renomeada marca de massas e farinha. Mas as coisas não correram bem, porque se há uma réstia de hipótese das coisas correrem mal, então as coisas correrão mesmo mal. Este é um dos corolários das Leiz de Murphy.


Estas Leiz foram criadas por volta de 1988 numa escarpa da ilha da Madeira, ainda o buraquinho do défice regional era uma coisinha pequenina do tamanho das orelhas do Dino, o furacão desengonçado.
Dino, na sua falsa lentidão, facturava golos num registo deveras digno para qualquer PME (Pequeno e Médio Estorvo), enquanto as Leiz tornavam-se mundialmente famosas. Mas o Murphy não. Quem era o Murphy? Quero lá saber. Veio de Liverpool e acabou na Madeira, como podia ter acabado nas Canárias, calhasse ter perdido a saída do paquete por lá.

Mas isso não vem ao caso. Estava a comentar o impacto da minha observação no Facebook.
A verdade é que fui copiosamente vergastado por um demolidor silêncio. Ninguém reconheceu a pertinência da minha observação. Os trocadilhos também têm direitos, mas quem os respeita? Será que a troika exigiu que a idade de reforma deste jargão também fosse aumentada, sei lá, para os 115 anos? Quem separa o trigo do joio no que concerne à boa arte de brincar com as palavras e os contextos, ou não estivéssemos a falar de um slogan com conotações cerealíferas? O Higino?

O Higino não está para se chatear. E eu também não vou chateá-lo. Vou deixá-lo subir essa Ladeira em paz, que já lhe basta carregar a cruz de ter um nome que rima com “girino”.
Mais íngreme que o Ladeira é o caminho que nos leva a ultrapassar velhos chavões jornalísticos. Em nome de manchetes de vácuo chapa-cinco e de uma suposta tradição sacrifica-se a originalidade. O gosto pelo Risco já não existe. Aliás, o gosto por jogos de tabuleiro em geral sublimou-se às mãos dos Triviais jogos de vídeo. E, quando se tenta combater o Monopólio da frase feita, haverá sempre alguém que irá resistir. É uma coisa mais certa que os balázios do Heitor aleijarem seriamente alguém.
O Heitor era o pé-canhão do povo, o Dinda perfeito, o Paulo Torres v3.0, o Barroso sem perturbações intestinais. Ele sim, abalava consciências, da mesma forma que abalava postes e redes. Um pontapé-canhão a sério era dizer que não se gosta no Facebook. Só para variar. Sempre seria melhor que a indiferença. Um tipo metia a foto do sobrinho e um gajo fazia um dislike à foto e comentava “esse puto é feio como tudo, sai ao tio… e ainda por cima com ranho a sair do nariz, grande porco”. Se uma publicação recebesse mais de 5000 dislikes iria a debate numa Comissão Parlamentar especialmente criada para o efeito. E quem seria o promotor dessa Comissão? Nada mais nada menos que o erudito William.

O William, esse central especialista da paradinha na marcação do penalty e do paradinho enquanto filosofia de jogo. Tem um curso superior, por isso deve estar no desemprego e, portanto, seria uma escolha lógica para representar a turba de dislikes do povo no Facebook, que é uma malta já de si um pouco a atirar para o desocupada. E em vez de fazer uma lista de amigos no Facebook, fazer só uma lista de gajos a evitar. Do género, “eh pá, se este gajo te pedir amizade esquece, porque ele só quer é pontos para jogar online”. Um dia, vou escrever ao Mark Zuckerberg e dizer-lhe qualquer coisa assim; “Hi, Mark. I think Facebook needs some improvements. And I have some ideas on that. As a matter of fact, I have Manny ideas.”
Não, não vou escrever-lhe. A culpa não é dele. Nem do Mark, nem do Manny. Embora aquele polícia lá atrás desconfie de alguma coisa.
Vou apenas aguardar. Estou consciente que a maior parte das pessoas não está empenhada nesta luta, agora que há coisas tão importantes no quotidiano do país por resolver, como saber novidades sobre a Casa dos Segredos, conhecer o namorado desta semana da Elsa Raposo ou até mesmo descobrir um comentário não acéfalo do Rui Gomes da Silva.

Vencerei com o tempo. Já estou a ver os contornos do meu triunfo: um dia, alguém há-de regurgitar a sua bifana regada com cerveja em cima do jornal, quando na apreciação da equipa do Nacional que venceu por 3-0 se ler “Este Nacional é mesmo bom”, tamanho será o bafio exalado por aquele título. Eu pelo menos irei acreditar que não será pelo facto de ter sido a vossa equipa a perder.

Nos próximos posts: como surgiu a macabra expressão “matar o borrego”, o porquê de tantas claques, após um “oooooh” de antecipação, insultarem a mãe do guarda-redes adversário aquando de um pontapé em profundidade deste e uma selecção dos melhores pontapés de baliza da época 1992-93, prestando assim homenagem ao lance de jogo mais incompreendido de todos (sim, o Luís Vasco e o Hubart estarão presentes).


domingo, agosto 28, 2011

One Hit Wonders - Tomo II

No post anterior, introduzimos carinhosamente a nova rubrica "One Hit Wonders" da mesma forma que o Sporting de Lisboa introduz reforços na equipa: à trolha, à pressa, atabalhoadamente e sem sucesso.

Não, a sério, até ficou giro.

Passemos então à segunda tentativa de enfiar a cultura musical dos 80's a martelo neste espaço boçal de insalubridade: todos a bordo do Paquete Playlist - esperemos por uma viagem agitada à medida que sulcamos as águas do Oceano Cromático.

Girando freneticamente em círculos na proa, o grumete Zé Bala.

Nome de guerra: José Dominguez
Comparação: MC Hammer – “Can’t Touch This”










Uma das regras-base para uma boa mixtape é abrir em grande estilo, com ritmos frenéticos e um “hook” repetitivo. O tinha tudo isso: estilo não lhe faltava, o ritmo nunca abrandava, e habilmente rimava. Porém, a finalidade do seu chinfrim era certamente duvidosa, tal como um livre do Pedrosa.

Style over substance, diziam eles. Reflexo da década da decadência. Do mesmo mal vivia MC Hammer. O calendário marcava 1990, mas a sua masterpiece berrava 1985 do alto de um falso pedestal “pop” esculpido a pés de barro e MTV awards. Um anacronismo em reverso. Um Bobo da corte glorificado com calças de Aladino, adorno capilar topo de gama, qual cereja no topo de um bolo comido e ferozmente cuspido um ano mais tarde por Kurt Cobain, Eddie Vedder, Layne Staley e restantes companheiros. Pragmatismo acima de tudo! Céu cinza e chuva de Seattle a cobrir almas pensativas de sobrancelha grave e sobrolho pesado.

O nosso MC não resistiu a esta mudança de atitude. Cedo rastejou pelas sarjetas da vida, recolhendo pedaços nojentos daquilo que outrora fora considerada uma carreira triunfante. O seu futuro seria traçado a tons de passado, um lembrete constante dos excessos de azeite de anos transactos…tal como Zé Bala, ícone fugaz de uma geração bolística ávida de criatividade e da vertiginosa velocidade de uma espiral que não acaba nunca. Ou pelo menos, nunca acaba em nada de jeito. Zé Bala fugazmente brilhou, apagou e partiu para nunca mais voltar. Algures encontrar-se-á com MC Hammer, e com um copito de Champomy de permeio, recordarão momentos fugidios de glórias vãs.


sábado, agosto 20, 2011

One Hit Wonders - Tomo I


One Hit Wonders.

Expressão demasiado associada com os Eighties, dadas as virtudes aglutinadoras dos tubos catódicos, que alegremente cuspiram o supracitado conceito através do canal VH1 e respectivas retrospectivas alicerçadas no pop da década da decadência.

Não obstante, o conceito de “One Hit Wonder” poderá ser de igual forma adaptado ao nosso tema favorito: a estomatologia.

E ao futebol também.

Deixemos então a estomatologia por um segundo (guardem os livros, por favor) e concentremo-nos no casamento perfeito entre One Hit Wonders dos anos 80 e a Bola Lusitana.

Ao jeito daquelas K7’s de compilações que fazíamos no secundário para impingir às miúdas que queríamos sacar, embarquemos então a bordo do Paquete Playlist, e esperemos por uma viagem agitada à medida que sulcamos as águas do Oceano Cromático.

- 1º Candidato:

Sorvendo um suco de acerola no porão, o primeiro imediato Bena.

Nome de guerra: Selim Benachour
Comparação: Cutting Crew - “(I Just) Died in Your Arms Tonight”

I keep looking for something I can't get

Broken hearts lie all around me
And I don't see an easy way to get out of this
(…)
The curtains are closed, the cats in the cradle
Who would've thought that a boy like me could come to this
Oh I, I just died in your arms tonight

Solitário, Selim limpa penosamente as lágrimas do rosto enquanto observa o relvado de expressão vazia cobrindo o olhar. Distante e penosamente ausente, qual last man standing numa batalha repleta de casualidades sangrentas. Corpos inanimados espalhados pelo relvado, entoando um requiem silencioso ao Vitória caído.

Emoldurando o deprimente cenário, um Coliseu de almas dilaceradas exige sangue. Uma amálgama de urros desesperados e lágrimas que queimam o próprio esqueleto do anfiteatro – e o espírito dos fundadores da Nação – encima os céus do Burgo, berço de um Império outrora orgulhoso.

Selim sabe que não há ponto de retorno. Não existe uma saída airosa, uma luz ao fundo do túnel. As luzes apagam-se, a cortina corre – final do 3º acto. Olá à 2ª Liga.

E Bena, alvo Cavaleiro da ordem de Vimaranes, desce finalmente de seu branco corcel, desembainha a espada e deixa-a cair numa poça de sangue. Todo o esforço fora em vão. O garboso Tunisino e seu fiel escudeiro Saganowski falharam.

Os Mouros – na pessoa colectiva do Estrela da Porcalhota – haviam conquistado o castelo de Guimarães e confirmado o inevitável: a Cruzada falhara e o tempo de Conquistas fora impiedosamente decapitado. Um golpe certeiro do agora Khazariano Semedo abalara o próprio solo onde Portugal um dia ousara ser Portugal.

E agora? Benachour só aqui sabia ser feliz. O seu passado tinha sido vazio de significado até chegar ao Minho. O futuro? Uma incógnita.

O Vitória, paixão-símbolo de uma Vida, chamamento finalmente descoberto, era finito.

Seguir-se-iam anos de exílio forçado, sem qualquer centelha de alegria ou sucesso.

Oh I, I just died in your arms tonight


sexta-feira, maio 27, 2011

Boavistão 2007-2008

Num ano que agora acaba... o Boavista morreu na praia No penúltimo minuto estava apurado para o acesso à II liga .. mas no último minuto o Padroense passou à frente.
Pobre Boavista... Poor GoodView..!!
Será então altura de lembrar que a última aparição do Boavista nos palcos da glória mostram um plantel.. completamente de loucos ..!!

Peter Jehle - Liechenstein - Um redes titular da pior selecção da Europa..!
Luciano Rissutt - Brasil - Defesa Central que passou completamente despercebido e joga agora no Ituano
Bryan Angulo - Colombia - Grande promessa de lateral esquerdo... mas que nem no Leixões despontou!
Marcelão!! - Grande Marcelão!! O homem dos tiros á entrada da área. Joga agora no Anápolis, do Brááásiuuuuu!!
Oladapo Olufemi! - Nigeriano, vindo do Anderlecht... mas que agora joga no Start, da Noruega..! e será que joga sempre de Start ou entra só no End?
Milan Gajic - Médio que está agora no Zurich e passou no Napredak da Eslovénia
Milos Bosancic  - Nada a dizer! Um grande cromo sem dúvida... Passou entretanto pelo Cuckaricki e Slovan Liberec.
Hussain Yasser . Vindo do Qatar, prometia muito...mas nem nos lembramos bem dele..! Mesmo assim, Zamalek e Al-Ahly, nao é nada mau!
Rafal Grzelak - Se calhar o nome mais sonante deste grupo. Polaco, estilo frio e de leste.. uns pés de ouro.. mas pouco mais. Mesmo assim andou por Steaua Bucareste, Xanthi e Lodz
Obi Charles - Nigeriano , possante, prometia ser um novo Yekini? Ye...que nao mesmo?! Entretanto passou por DOxa, Flamurtari, Suduroy e Yangon United. Mas que grande Curriculum. Vale a pena acompanhar... talvez para o ano esteja no Yjikolu da Malásia do Sul... ou o catano!
Samy Bangoura - o jogador com mais Curriculum antes do Boavista.., mas que depois também se eclipsou! Cadiz, Panserraikos e Smouha do Egipto foram os destinos seguintes!

E aqui ficam algumas das fronhas! podem jogar ao "Quem é quem?"







O que faz Jaime Pacheco aos jogadores, meu deus..
E sim, isto foi uma equipa do BOAVISTA... como é possível perguntam voces? Pois é...dói mas é verdade.

domingo, maio 08, 2011

Entre Duas Terras

MADRID – Seguindo a europeização dos nossos clubes, nós, Cromos da Bola S.A.D., atravessámos a fronteira e constatámos que o futebol português está na moda. E tudo se deve, sem grande margem para discussão, à popularidade magnetizante de Eliseu e Zé Castro, os verdadeiros embaixadores do perfume de futebol português. Alguns dirão que será por causa de um tal de Mourinho e desse garoto, o Cristóvão Ronaldo, mas não vos iludais. Os espanhóis gostam de coisas genuínas e não de produtos de marketing. Os sinais da paixão castelhana pela essência do futebol luso estão aqui, um pouco por todo o lado, da Plaza Mayor até às Ventas.
Na verdade, já em tempos demonstrámos o fascínio particular de que Vado goza junto de nuestros hermanos. É verdade; não há sinal de estacionamento proibido que se preze que não preste culto a Vado, como que a dizer, “se prevaricares, caro condutor, ficai sabendo que Vado vê tudo e não perdoará”. Está tudo nos versículos de Autuori, XVI-4, conforme referido por João Catatau na sua Grande Bíblia dos Sinais de Trânsito.

Vado consegue ser tão omnipresente que alguns sinais mais fundamentalistas advogam mesmo “Vado Permanente”. E se a moda pegasse? E se outros jogadores do nosso campeonato começassem a servir de complemento a sinais de estacionamento proibido? Será que iríamos parar para pensar? Será que cederíamos à tentação de ficar mesmo ali em vez de dar mais uma volta pelo quarteirão?

Talvez sim. Talvez esse seja só um mérito atribuível a Vado. Mas há uma coisa que Vado não consegue nesta cidade e que Secretário, de forma fantástica, chama a si com todas as forças: estar entalado entre Roberto Carlos e Seedorf na galeria de jogadores que ostentaram a camisola do Real Madrid, no respectivo museu.

E assim, Secretário saboreia oficialmente toda a glória que Beto bem almejou sem nunca conseguir. E, com a sorte de Beto, o mais provável era ele acabar entalado não entre dois nomes de dimensão mundial, mas entre personalidades da gama de Balboa ou de Totti. Disse Totti? Desculpem, eu queria era dizer “Tote”, esse delicioso avançado que fez escola como porta-coletes nos treinos no Estádio da Luz. Se Secretário pode, porque não Tote?

Mas o Real Madrid, magnânimo, tem coração suficientemente majestático para albergar mais individualidades do futebol indígena. Por exemplo, aqui é possível ver Zeferino, no canto superior esquerdo, defendendo as cores da Guiné no museu do Real Madrid, ao lado de Beckham, Puskas e novamente Seedorf. Nem nos mais distorcidos jogos de Football Manager seria possível imaginar semelhante combinação.

E há mais. Nesta parede, é possível captar-se parte do nome da formiga atómica que foi César Prates, o homem de passo galopante e calções curtos; a foto fugidia do companheiro PALOP de Zeferino, o cabo-verdiano Tinaia, outra promessa que ficou para cumprir num destes dias, provavelmente quando Portugal voltar a ser um país com excedente orçamental; e os portugueses, que incluem um tipo que perdeu o título de “next big thing” para Simão aos pontos, Edgar, indiciando que até o Real Madrid acredita em novos Eusébios de vez em quando. O Pepe não foi considerado nem como Brasileiro nem como Português, mas sim como uma “Máquina de Destruição em Movimento”, e foi colocado no espaço junto à máquina de café e à trituradora de papel.
De todos eles, Secretário é o nome que mais perplexidade gera nos madrilenos e facilmente constatámos isso. No museu, quando apontámos para Secretário, todos encolheram os ombros, entre algumas risotas do género “isto é para os apanhados?”, e houve mesmo quem julgasse que havíamos vandalizado o museu com aquela fotografia – para nosso azar, era o segurança e acabámos expulsos e a fugir da polícia pela Castellana abaixo. Não desistimos e vogámos pela cidade à procura de respostas, passando pela Plaza de Cibeles, onde já se aglutinava uma pequena multidão para comemorar mais um cabeceamento ao primeiro poste de Zé Castro ou um espectacular pontapé de canto de Eliseu. No meio de tanta celebração, tinha de haver alguém em Madrid que soubesse quem era o Secretário.


Reparámos naquele senhor que se dirigia para o portão do Palácio Real e questionámo-lo sobre Secretário. Ele era austríaco, achámos nós, e o máximo que aconteceu foi ele mostrar-nos a foto da filha que mantém numa cave há 15 anos alimentada a marmelada e a croissants aos quais o Pedro Barbosa só comeu o fiambre e deixou o queijo. Ou há 50 anos, percebemos mal alemão com sotaque. Depois abordámos aquele senhor vestido de azul que descansava junto às grades e que parecia muito sábio. Ele disse que sim senhor, lembrava-se perfeitamente do Edgar e nutria uma enorme devoção pelo Vado, mas Secretário nada. Estávamos prontos para falar com toda a gente desta praça até que a pessoa mais à direita ouviu as nossas preocupações, veio ter connosco e nos disse que sim, que sabia quem era Secretário e nos pediu educadamente para pararmos com estas perguntas, que era assunto sensível e tal. Essa pessoa pediu-nos anonimato, mas depois fomos beber uma caña de cerveza e comer uma tapa com ela no Mercado de S. Miguel e ficámos a saber que era uma tipa chamada Paula e que era muito boa na organização de eventos para grupos numerosos.

A Paula perguntou-nos se conhecíamos alguém que gostasse muito de brincadeira e nós recomendámos-lhe o Abiodun. Ela ficou agradada, embora nos tenha confidenciado que preferiria o Bodunha. Nós dissemos-lhe que também preferiríamos o Bodunha, porque compreende a ética kantiana como mais nenhum outro lateral, mas só o Abiodun é que tinha e-mail, porque o Bodunha ainda anda às voltas com o MS-DOS. Gravámos o contacto dele num presunto ibérico e oferecemo-lo à Paula, mas achamos ela não vai ter sorte, porque o Abiodun, para além de não saber parar uma bola, detesta spam e não costuma abrir attachments de gente que não conhece.
Antes de nos virmos embora, passámos ainda pelo estádio do Atlético. É um estádio esquisito, que tem uma via rápida a passar sob uma bancada, o que, no caso dos Super Dragões, daria um jeitaço enorme, porque podiam mandar simultaneamente bolas de golfe para os jogadores dentro do estádio e para o autocarro do Benfica na estrada.
E foi lá que pudemos ver o outro português que fez história nesta cidade, Paulo Futre. Estava lá com as maluquices dele, a fintar os automóveis junto ao estádio com o seu fabuloso pé esquerdo, concentradíssimo como sempre. Vale.

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